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Liberdade | Democracia

Mais médicos, menos saúde

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Os problemas dos quais fogem os médicos brasileiros estão esperando os médicos cubanos. Quando constatarem que a dor abdominal do paciente não é uma gastroenterite, e sim uma apendicite, os médicos cubanos estarão frente à mesma realidade que motiva os protestos dos médicos brasileiros.

As críticas de que os médicos brasileiros são elitistas e que por isso fogem desses locais é ridícula. A manobra do governo em simular preferencia pelos médicos brasileiros era sórdida e altamente previsível. O governo já sabia que os médicos brasileiros batalhavam por condições de trabalho adequadas para um atendimento digno à população. O estratagema foi apenas para justificar a importação dos médicos cubanos e demonizar com preconceitos os médicos brasileiros. c41

O argumento é de uma lógica muito simples. Se fosse verdade que os médicos são elitistas e não querem atender povo simples ou em locais distantes. Se fosse verdade que eles arrogantemente recusam um bom salário. Se fosse verdade que não desejam atuar nesses locais, então porque motivo protestam os médicos. Se os médicos estrangeiros ficarão restritos a estes locais e de forma provisória, porque, afinal, os médicos tomaram as ruas em manifestações. O fizeram porque querem mudar a realidade do SUS no país todo. Se fossem indiferentes, como são acusados, eles ficariam satisfeitos por ter médicos que assumam a “bronca” da qual fogem.

A vocação dos médicos não é segurar a mão de um doente, enquanto assiste impotente sua enfermidade agravar e até comprometer sua vida. Sem estrutura adequada o diagnóstico muitas vezes fica reduzido ao “melhor palpite” e o tratamento fica reduzido a “o melhor que se pode fazer nessas condições”. Em situações de guerra os “Médicos sem Fronteiras” enfrentam esse desafio. Mas esse não é o caso. Não estamos em guerra. O que existe é incompetência na administração da infraestrutura médica do país. E, sobretudo, um interesse mal disfarçado de usar esse programa para esconder o problema e tirar vantagens eleitorais.

Quando um médico brasileiro que se fixa num município é responsabilizado por uma série de situações que ele não tem como evitar. Em um parto, um bebê que esteja sentado (em vez de estar na posição correta) coloca em risco sua chance de nascimento e até a vida da mãe. Sem equipamentos o médico descobrirá essa situação pelo caminho mais arriscado e com poucas  alternativas para reverter o problema. É a medicina da década de 30.

Para todas as falhas decorrentes da falta de estrutura quem acaba responsabilizado (inclusive judicialmente) é o médico. Sem condições adequadas para exercer medicina, os médicos brasileiros recusam-se a trabalhar nesses locais, não importando o valor do salário. É uma questão de princípio. Isso sem entrar no mérito que, em grande parte, esses salários não são pagos regularmente. Depois de alguns meses o médico descobre que não receberá seu salário com combinado, mensalmente. Também não se comenta que os médicos nessas situações são incorporados por “contratados emergenciais” e dispensados sumariamente quando o prefeito assim desejar, ou um novo prefeito for eleito.

Os médicos cubanos não precisam se preocupar com a responsabilização de seus atos por conta da falta de estrutura. Eles não são os responsáveis. Além disso, a condição de penúria que encontraram não é diferente daquela que eles conviviam em Cuba. Segundo o Ministro Padilha eles vêm prestar “atenção básica”, apenas. Seria interessante se isso pudesse ser verdade. Se de alguma forma a presença dos “médicos” cubanos pudesse condicionar o tipo de doenças que surgirão e o tipo de atendimento que terão que dar. Os problemas cardíacos continuarão acontecendo. As apendicites, as passagens de calculo renal continuarão acontecendo. Qualquer atendimento de especialista continuará sendo agendada para vários meses depois e qualquer emergência médica continuará carente de leitos e equipamentos.

A realidade continuará a mesma. Escondida atrás do tapete por médicos falando “portunhol” e trabalhando em regime análogo a escravidão. Tudo para atender o interesse eleitoral de Dilma na disputa à presidência e de Padilha para a disputa ao governo de São Paulo.

O resultado desse programa populista e eleitoreiro é lamentavelmente surpreendente.

O caos da saúde permanecerá como estava. A categoria dos médicos foi demonizada pelo governo com sua nababesca máquina de propaganda. O povo terá alguém de jaleco branco com quem consultar, sem que saibamos se de fato são qualificados para exercer a medicina. O governo continuará lavando a mão e terceirizando a responsabilidade dos erros e óbitos que a falta de estrutura médica criam. O governo federal conseguirá continuar fugindo da responsabilidade de gerir com eficiência (mínima) o SUS. Dilma seguirá em busca de vantagens eleitorais do programa. E Cuba receberá do Brasil 500 milhões apenas nessa primeira etapa do programa para conduzir essa ação falsamente humanitária, visto que é um negocio rentável.

Por fim, a saúde continuará com as mesmas graves mazelas que sempre teve. O povo terá alguém jaleco branco para atender problemas menos graves. E quando a situação ficar um pouco mais complexas, os brasileiros estarão tão desamparados quanto o médico que estiver junto a ele. Saúde é séria demais ser tratada de forma tão improvisada, eleitoreira e superficial.

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Written by onyxlorenzoni

setembro 16, 2013 às 5:15 pm

4 Respostas

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  1. COMO VIMOS NO TEXTO, FAZ PARTE DESSES GOVERNANTES,JOGAREM Á POPULAÇÃO CONTRA OS MÉDICOS, COMO TB FIZERAM COM OS PROFESSORES, E PARA MIM TÊM UM ABSURDO MAIOR DA PRESIDANTA QUE É MANDAR MILHÕES PARA OS AMIGUINHOS DELA, EM CUBA, COMO SE AQUI NÃO HOUVESSE PROBLEMAS……….

    Carlos Alberto E Cruz

    outubro 15, 2013 at 8:56 pm

  2. CONCORDO E ASSINO EM BAIXO DO “MAIS MÉDICOS, MENOS SAÚDE” CARLOS ALBERTO E CRUZ

    Carlos Alberto E Cruz

    outubro 15, 2013 at 8:45 pm

  3. Muito bom o artigo. Inicialmente agradeço em nome da classe médica a batalha que o nobre deputado tem travado para evitar que médicos sem revalida trabalhem em nosso país. Como o PT coloca, parece que os Conselhos de Medicina querem criar obstáculos para o exercício da profissão por médicos cubanos e de outros países, o que não é a realidade. A realidade é que temos um sistema de saúde que poderia ser muito bom se fosse bem administrado, mas devido a incompetência administrativa, o que vemos e a falta de infraestrutura, a má distribuição de profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, etc), enfim um estrutura totalmente destroçada, pois mesmo nas capitais ele não funciona a contento.
    A respeito da cobrança de 10% do FGTS, também somos contra, pois só serve para sobrecarregar o empregador, uma vez que o dinheiro arrecadado certamente será desviado para outros fins.

    Ricardo Guimarães

    outubro 14, 2013 at 9:51 am

  4. Perfeita a sua análise deputado. Apesar de não ser da sua base eleitoral (moro em SC), o deputado tornou-se um dos parlamentares que mais admiro, pela incansável defesa dos ideais democráticos, fazendo oposição inteligente e inovadora. Parabéns Deputado!

    Adriana Lisboa

    outubro 14, 2013 at 8:02 am


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